Pesquisadores da Curtin University, na Austrália, identificaram interferências de rádio emitidas por satélites da Starlink que podem comprometer observações astronômicas de baixa frequência. O levantamento, considerado o maior já feito sobre o tema, foi conduzido pelo Centro Internacional de Pesquisa em Radioastronomia (ICRAR) e publicado na revista Astronomy and Astrophysics. As conclusões apontam que sinais não intencionais dos equipamentos ofuscam ondas de rádio fracas, essenciais para investigações sobre a origem e a evolução do Universo.
Interferência de satélites da Starlink preocupa radioastronomia
Estudo analisa emissões de baixa frequência
O trabalho se concentrou na constelação Starlink, atualmente composta por mais de sete mil satélites de órbita baixa operados pela SpaceX. Entre dezembro de 2022 e março de 2023, a equipe analisou dados obtidos por uma estação protótipo do futuro radiotelescópio Square Kilometer Array (SKA) e registrou 112 mil emissões de rádio provenientes de 1.800 satélites do serviço de internet.
Vazamento de sinais compromete imagens
Segundo o artigo, os ruídos detectados não são parte do sistema de comunicação dos aparelhos, mas vazamentos de componentes eletrônicos de bordo. Esse ruído indesejado aparece nos mesmos comprimentos de onda usados por astrônomos para captar sinais cósmicos de baixa intensidade, dificultando a distinção entre fontes celestes legítimas e interferências artificiais geradas em órbita terrestre.
Magnitude da constelação e impacto nas observações
Quase um terço das imagens afetadas
Durante o período de coleta, a Starlink adicionou 477 novos satélites à rede, elevando a frequência de passagens sobre as antenas do estudo. Em determinados conjuntos de dados, até 30% das imagens analisadas apresentaram algum nível de contaminação radioelétrica causada pelos equipamentos, revelou o pesquisador responsável, Dylan Grigg.
Bandas reservadas também apresentam ruído
Os autores destacam que emissões foram registradas em 150,8 MHz, faixa destinada a serviços de radioastronomia e, portanto, supostamente livre de sinais artificiais. Ao todo, 703 satélites emitiram nessa banda, indicando que o problema não está ligado apenas à quantidade de aparelhos em órbita, mas à intensidade e à distribuição espectral das frequências vazadas.
Regulamentação atual e diálogos com a SpaceX
Empresa cumpre normas vigentes
A pesquisa ressalta que a SpaceX não viola regulamentações internacionais, pois as regras existentes concentram-se em transmissões deliberadas. Como o ruído é classificado como incidental, não há obrigações específicas para mitigá-lo. Mesmo assim, a equipe mantém conversas com a companhia para compartilhar resultados e sugerir ajustes técnicos que reduzam a emissão não intencional.
Imagem: mais de sete mil satélites de baixa ór via olhardigital.com.br
Pesquisadores pedem atualização de políticas
Os cientistas afirmam que o cenário coloca a radioastronomia em posição vulnerável diante da crescente quantidade de satélites comerciais. Para evitar prejuízos futuros, recomendam a revisão dos marcos regulatórios, contemplando limites de potência para emissões espúrias e procedimentos de certificação que considerem o impacto cumulativo de megaconstelações.
Próximos passos com o Square Kilometer Array
Rádio “silencioso” é essencial para descobertas
O protótipo utilizado no estudo analisou 76 milhões de imagens do céu, demonstrando o potencial do SKA, que terá instalações na África do Sul e na Austrália até o final da década. Com sensibilidade inédita, o radiotelescópio pretende investigar a formação das primeiras estrelas, a natureza da matéria escura e testar previsões da relatividade geral. Os pesquisadores, no entanto, alertam que o sucesso dessas metas depende de um ambiente radioelétrico livre de ruídos.
Para os responsáveis pelo estudo, a expansão de serviços de conectividade orbital oferece benefícios sociais inegáveis, mas requer equilíbrio com a preservação das janelas de observação astronômica. A adoção de tecnologias de blindagem, filtros de frequência e diretrizes internacionais mais rígidas é vista como caminho para conciliar inovação comercial e avanços científicos nas próximas décadas.

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