Data centers multiplicam capacidade de IA
OpenAI e Oracle anunciaram em 22 de julho a intenção de acrescentar 4,5 GW ao projeto Stargate, elevando-o a 10 GW e prevendo investimentos de US$ 500 bilhões. O plano busca manter os Estados Unidos na disputa global pela liderança em inteligência artificial.
A ampliação implica a construção de novos complexos de processamento, o que reforça o ritmo acelerado de instalação de megaestruturas de dados nos próximos anos. Especialistas alertam que essa corrida pressiona recursos essenciais, como água e energia, sobretudo em regiões com infraestrutura limitada.
Data centers geram impactos locais
No Brasil, dois projetos ilustram os desafios. Em Caucaia, Ceará, o TikTok prepara um data center em área historicamente afetada por estiagens. A estimativa é de que, em apenas um dia de operação, a unidade consuma a mesma energia gasta por 2,2 milhões de pessoas.
Além da demanda elétrica, o centro exigirá grande volume de água para resfriamento de servidores, fator que pode agravar a crise hídrica no semiárido nordestino. Moradores relatam ausência de estudos detalhados sobre o impacto ambiental e cobram transparência no processo de licenciamento.
Outro caso é o da AI City, em Eldorado do Sul, Rio Grande do Sul, região atingida por cheias em 2024. O investimento inicial é de R$ 3 bilhões, com 54 MW de capacidade prevista. O projeto, porém, pode escalar até 4.750 MW, comparável ao consumo elétrico de todo o estado do Rio de Janeiro.
Produtores de arroz temem prejuízos caso o empreendimento capte água dos rios locais para resfriamento. Comunidades indígenas próximas, que vivem em condições precárias, alegam não ter sido consultadas sobre a instalação.
A reportagem que analisou os dois exemplos destaca falta de garantias de retorno para a população e trâmites acelerados de autorização. Em 2024, sete dos 21 pedidos de conexão de grandes cargas avaliados pelo Ministério de Minas e Energia referiam-se a data centers.
Embora as empresas prometam gerar empregos e estimular a economia, questiona-se se os ganhos compensam a pressão sobre sistemas elétricos e hídricos já sobrecarregados. A necessidade de refrigerar servidores representa um dos principais pontos de consumo de recursos.
Especialistas também citam a emissão de calor residual. Sem gestão adequada, esse calor se dispersa na atmosfera, ampliando a pegada ambiental do complexo computacional.
Escolher o local adequado é decisivo. Proximidade com hubs de telecomunicações e rotas de fibra óptica reduz latência e custos, motivo que pode ter atraído o projeto de Caucaia, situada perto de cabos submarinos internacionais.
Climas frios, por sua vez, diminuem a dependência de sistemas de resfriamento de alto gasto hídrico e energético, tornando regiões de menor temperatura mais sustentáveis para grandes centros de dados.
Alguns estudos defendem instalar data centers em áreas densamente povoadas, aproveitando subsolos de prédios existentes. A estratégia evita desmatamentos, corta despesas com linhas de transmissão e permite recuperar o calor gerado para aquecer água ou ambientes residenciais próximos.
Apesar dessas alternativas, a prática dominante ainda favorece regiões periféricas, onde terrenos amplos facilitam expansões futuras. Essa preferência, porém, transfere custos de infraestrutura para governos locais e pode intensificar conflitos pelo uso de recursos naturais.
Com a previsão de que o consumo global de eletricidade para inteligência artificial aumente de forma expressiva até o fim da década, cidades receptoras de grandes data centers enfrentam o desafio de equilibrar crescimento econômico, segurança hídrica e sustentabilidade energética.

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