Startups de IA dos EUA ressuscitam escala 996, prática banida na China

Índices
  1. Escala 996: modelo reaparece em pleno Vale do Silício
  2. Como funciona a escala 996
  3. Implementação gradual nas empresas americanas
  4. Consequências para funcionários e setor
  5. Debate global sobre cultura de trabalho

Quem busca emprego no aquecido setor de inteligência artificial dos Estados Unidos tem encontrado cada vez mais anúncios que exigem disponibilidade para jornadas muito acima do padrão legal. Empresas emergentes vêm retomando a escala 996, regime de trabalho que prevê doze horas diárias, seis dias por semana, totalizando 72 horas semanais.

Escala 996: modelo reaparece em pleno Vale do Silício

A prática voltou ao centro do debate após reportagem da revista Wired, publicada em 28 de julho de 2025.

Segundo a publicação, startups da Baía de São Francisco e do Vale do Silício já aplicam o método de forma informal, omitindo o termo para evitar associação a polêmicas trabalhistas.

Mesmo sem usar a expressão “996”, recrutadores perguntam aos candidatos, ainda na triagem inicial, se aceitariam rotinas de aproximadamente 70 horas presenciais por semana.

Pressão do mercado de IA acelera adoção

O interesse dos investidores por soluções baseadas em inteligência artificial elevou o ritmo de desenvolvimento de produtos.

Diante da disputa por avanços rápidos, fundadores e executivos defendem que o esforço extra é “necessário” para ganhar vantagem competitiva.

Essa dinâmica, relatam fontes do setor, contribui para naturalizar a expansão da carga horária.

Como funciona a escala 996

Origem: o modelo surgiu na indústria de tecnologia chinesa e ficou marcado por grandes corporações, como Alibaba e Tencent.

Carga horária: o funcionário trabalha das 9h às 21h, seis dias por semana, somando 72 horas semanais.

Remuneração: em teoria, o excedente deve ser pago como hora extra, mas denúncias apontam que nem sempre isso ocorre.

Proibição na China desde 2021

Casos de exaustão extrema e até mortes de colaboradores levaram a protestos em 2019.

Em 2021, autoridades chinesas declararam ilegal a escala 996 e intensificaram a fiscalização sobre jornadas acima do limite.

Jack Ma, fundador do Alibaba, chegou a elogiar o modelo, chamando-o de “bênção”, mas recuou após a nova regulamentação.

Implementação gradual nas empresas americanas

A Wired cita a Rilla, startup de Nova York, como exemplo explícito.

Anúncio para engenheiros descreve como requisito “trabalhar aproximadamente 70 horas semanais presencialmente com algumas das pessoas mais ambiciosas de Nova York”.

Startups de IA dos EUA ressuscitam escala 996, prática banida na China - Imagem do artigo original

Imagem: tecmundo.com.br

Outras companhias adotam o expediente estendido apenas para equipes consideradas “vitais” ou para cargos de liderança técnica.

Estratégias para driblar processos trabalhistas

Entrevistados pela revista relatam que as empresas evitam registrar formalmente a política de escala 996.

Na prática, incentivos como participação acionária, bônus e a promessa de crescimento rápido tentam convencer profissionais a aceitar a sobrecarga.

A ausência de menções claras em contratos dificulta comprovações legais de jornada excessiva.

Consequências para funcionários e setor

Especialistas em direito do trabalho lembram que a legislação federal norte-americana estabelece regra de 40 horas semanais, com pagamento de hora extra acima desse limite.

No entanto, trabalhadores do chamado “colarinhos brancos” podem ser enquadrados como isentos, dependendo da função e do salário, o que reduz a proteção.

Isso abre espaço para que startups ampliem o expediente sem penalidades imediatas.

Sinais de resistência interna

Embora alguns profissionais encarem a carga ampliada como oportunidade de participar de projetos de ponta, há relatos de desgaste e alta rotatividade.

Plataformas de avaliação de empregadores mostram comentários preocupados com equilíbrio entre vida pessoal e trabalho.

Para alguns candidatos, a exigência de 70 horas semanais se torna fator decisivo para rejeitar ofertas, mesmo em um mercado aquecido.

Debate global sobre cultura de trabalho

O ressurgimento da escala 996 nos Estados Unidos reacende discussões sobre limites de jornada em setores de alta tecnologia.

Com a IA atraindo bilhões em investimentos, cresce o temor de que a busca por velocidade amplifique práticas laborais consideradas abusivas.

Organizações de trabalhadores e reguladores acompanham o movimento, avaliando se será necessário atualizar normas para proteger profissionais em um cenário de inovação acelerada.

Postagens relacionadas

Go up