Polícia do Rio desmonta fraude que usava IA e falha no Pix para desviar R$ 114 mil da Uber

Fraude na Uber: inteligência artificial e vulnerabilidade no Pix provocam prejuízo de R$ 114 mil

Índices
  1. Fraude na Uber: inteligência artificial e vulnerabilidade no Pix provocam prejuízo de R$ 114 mil

A Polícia Civil do Rio de Janeiro deflagrou na manhã desta segunda-feira a operação Rota Falsa, voltada a um esquema que teria desviado R$ 114 mil da Uber em mais de 2.000 viagens fraudulentas.

Segundo os investigadores, dois principais suspeitos, auxiliados por possíveis comparsas, criaram centenas de perfis de motoristas e passageiros manipulando imagens com inteligência artificial (IA) e exploraram uma falha no sistema de pagamentos via Pix do aplicativo.

Quem são os alvos e onde ocorreram as buscas

Cinco mandados de busca e apreensão foram cumpridos em endereços no Alto da Boa Vista, Tijuca, Maracanã e Honório Gurgel, todos na zona norte do Rio. Os nomes dos investigados não foram divulgados.

Nos locais vistoriados, agentes recolheram fotografias impressas e arquivos digitais usados para enganar o sistema de verificação facial da plataforma.

Como a fraude foi estruturada

De acordo com a polícia, os suspeitos abriram 480 contas na Uber. Dessas, 478 foram criadas a partir do endereço de um dos investigados, enquanto as contas bancárias vinculadas aos perfis de motoristas estavam em nome do segundo investigado.

Para burlar a checagem de identidade, os golpistas utilizavam dois métodos:

• Manipulação de imagens com ferramentas de IA, gerando rostos inexistentes ou ajustando fotografias reais.
• Uso de fotos físicas de terceiros, impressas em papel e posicionadas sobre o próprio rosto durante a verificação.

Exploração do pagamento imediato via Pix

Todas as corridas simuladas foram registradas com a opção Pix. Nessa modalidade, o passageiro faz a transferência e o sistema confirma o pagamento antes de liberar o motorista.

Para aumentar o valor cobrado, os falsos passageiros adicionavam múltiplas paradas aos trajetos. Quando isso ocorre, a Uber efetua o repasse ao motorista e, em seguida, tenta debitar o valor adicional da conta do passageiro.

Como os perfis de passageiros eram fictícios, o débito não era concluído. O montante ficava pendente e, na sequência, a conta era abandonada. O prejuízo acumulado à empresa chegou a R$ 114 mil.

Mais de 2.000 viagens geradas artificialmente

Somadas, as contas fraudulentas registraram pouco acima de 2.000 deslocamentos. Cada corrida foi planejada para parecer legítima, com rotas curtas ou médias dentro da cidade do Rio, evitando suspeitas imediatas.

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Imagem: uol.com.br

O pagamento ao motorista — também controlado pelos suspeitos — era liberado assim que o Pix inicial era confirmado, mas a diferença decorrente das paradas extras nunca retornava à plataforma.

Detecção interna e denúncia da Uber

A Uber informou que suas equipes de monitoramento identificaram padrões fora do comum e encaminharam os dados às autoridades. A empresa declarou usar “análises manuais e sistemas de aprendizado de máquina que avaliam mais de 600 tipos de sinais para detectar comportamento fraudulento”.

Após a denúncia, investigações do setor de Defraudações da Polícia Civil confirmaram a existência da vulnerabilidade e rastrearam os endereços ligados aos logins suspeitos.

Por que a vulnerabilidade no Pix facilitou o golpe

O mecanismo de cobrança instantânea via Pix libera o motorista apenas depois da confirmação inicial do pagamento. Entretanto, quando o passageiro adiciona paradas ao percurso, a plataforma antecipa o repasse ao condutor e só depois tenta debitar o valor adicional.

Essa diferença permitiu que golpistas recebessem a parte extra da tarifa sem que houvesse saldo real nas contas dos passageiros fictícios, já que não havia vínculo bancário válido ou fundos suficientes.

Próximos passos da investigação

Os celulares e computadores apreendidos serão periciados para identificar demais participantes, valores envolvidos e possíveis softwares de IA empregados. A polícia também apura se houve colaboração de terceiros, como técnicos ou desenvolvedores especializados.

Caso confirmadas as fraudes, os suspeitos podem responder por estelionato, falsidade ideológica e associação criminosa. As penas combinadas podem ultrapassar dez anos de prisão.

Impacto e medidas de prevenção

Além de reforçar rotinas de verificação facial, a Uber informou que revisa o fluxo de pagamentos via Pix para evitar antecipações de valores sem garantia de saldo. A plataforma não divulgou prazo para concluir essas mudanças.

Enquanto isso, a Polícia Civil orienta usuários e motoristas a reportarem imediatamente qualquer atividade incomum no aplicativo, como corridas com múltiplas paradas ou perfis cujas fotos aparentem distorções digitais.

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