Nio mira mercado de telefonia móvel
A Nio, companhia criada em março de 2024 a partir da divisão de ativos da antiga Oi, prepara os primeiros passos para oferecer serviço de internet móvel no Brasil. A empresa, que já nasce com 4,1 milhões de assinantes de banda larga por fibra e receita anual de R$ 4 bilhões, vê na expansão para o celular uma forma de diversificar o portfólio e ganhar escala no setor de telecomunicações.
Quem é a Nio e qual o seu ponto de partida
A operadora surgiu após a venda, em etapas, dos negócios da Oi: infraestrutura foi para a V.tal em 2021, telefonia celular foi divida entre Claro, TIM e Vivo em 2022, e a rede de fibra óptica passou a pertencer ao novo grupo em 2024. Com quase 4 milhões de clientes, a Nio ocupa hoje a terceira posição no mercado de banda larga fixa, atrás de Claro e Vivo.
Marcio Fabbris, presidente da Nio, conduz um processo de reestruturação interna para reduzir a dependência de sistemas ainda fornecidos pela Oi e consolidar operações próprias até o fim do ano. Paralelamente, a direção avalia formas de ingressar no segmento móvel.
Modelo MVNO é a principal aposta
Como funcionaria o aluguel de rede
A alternativa considerada prioritária é transformar a Nio em MVNO (operadora móvel virtual). Nesse modelo, a empresa aluga capacidade de rede de Claro, TIM ou Vivo para comercializar pacotes de voz e dados com sua própria marca. Segundo fontes ligadas às negociações, ainda não há proposta formal, apenas sondagens informais com as três líderes do setor.
A viabilidade econômica depende de um desconto de 20% a 30% sobre os preços de varejo praticados pelas grandes operadoras. A Nio sustenta que a condição é essencial para competir. Exemplos atuais de MVNO incluem Datatora, com 3 milhões de usuários, Surf Telecom, com 2,5 milhões, ambas ancoradas na rede TIM, e a NuCell, fruto de parceria entre Nubank e Claro.
Por que o celular é estratégico
No Brasil, a telefonia móvel responde pela maior parte do faturamento de telecom. Adicionar planos de dados ao catálogo daria visibilidade à marca Nio e permitiria ofertas convergentes com a banda larga fixa, prática comum entre concorrentes. Atualmente, a companhia não dispõe de TV por assinatura nem de voz móvel, o que limita seu poder de retenção de clientes.
Participação em futuros leilões de espectro
Olho nas faixas que sustentarão o 6G
A Nio também estuda disputar as próximas licitações de radiofrequência conduzidas pela Anatel, previstas para ocorrer dentro de dois ou três anos e voltadas a faixas que deverão suportar a tecnologia 6G. Fabbris afirma que a empresa possui capacidade financeira para participar, mas condiciona o movimento a “condições favoráveis” de preço e obrigações de cobertura.
Mercado concentrado e impacto para o consumidor
Concentração cresceu após saída da Oi
Desde que a Oi deixou o segmento móvel, a participação conjunta de Vivo (38,5%), Claro (33,2%) e TIM (23,4%) passou de 80% para 95% das linhas em serviço. A ausência de um quarto competidor de alcance nacional elevou a concentração e reduziu opções para o cliente final.
Imagem: uol.com.br
Em 2021, levantamento do Idec indicava que o gigabyte em plano pré-pago da Oi custava um quinto do valor cobrado pelas rivais em São Paulo. A eventual entrada da Nio poderia restabelecer algum grau de pressão competitiva sobre preços, especialmente em ofertas de dados.
Debate regulatório pode abrir espaço
Fabbris defende ajustes no Plano Geral de Metas de Competição (PGMC), em revisão na Anatel, para estimular inovação e permitir presença de novos atores, citando o que ocorreu no sistema financeiro com o Pix e as fintechs.
Desafios internos antes da estreia
“Arrumar a casa” até dezembro
Antes de lançar um serviço móvel, a Nio precisa concluir a migração de plataformas de atendimento, faturamento e rede que ainda dependem da Oi. O cronograma prevê independência total até o fim do ano. Apenas então a companhia decide se inicia operação como MVNO, tenta comprar espectro ou adota estratégia combinada.
Enquanto isso, a empresa busca fortalecer a rede de fibra, principal fonte de receita atual. Mesmo com base de usuários expressiva, a Nio ainda não alcança o poder de barganha de concorrentes que oferecem pacotes quádruplo play (internet, TV, telefone fixo e móvel).
Se conseguir superar os desafios operacionais e negociar condições favoráveis com parceiros ou com a Anatel, a Nio poderá reabrir a disputa no mercado móvel brasileiro, retomando o papel que a Oi desempenhou até 2021.
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