Capitalismo chantagista e ódio ao universal: análise de retrocessos nos direitos humanos de Gaza ao Brasil

Capitalismo chantagista: conceito e origem

Índices
  1. Capitalismo chantagista: conceito e origem
  2. Retrocesso nos direitos humanos no Brasil sob Bolsonaro
  3. Paradoxo dos direitos universais
  4. Gaza como laboratório global de chantagem política
  5. Desafios para um novo consenso

Pesquisadores que estudam a relação entre economia e política identificam um novo cenário global a partir da crise financeira de 2008. Segundo esses especialistas, o antigo “Consenso de Washington” foi substituído por um modelo apelidado de “capitalismo chantagista”.

O termo descreve a oferta de benefícios parciais em troca da tolerância a violações de direitos. Essa dinâmica, observada em diferentes regiões, sugere uma “refeudalização do mundo”, marcada pela ideia de que “não há sociedade para todos”.

Crise de 2008 e refudalização do mundo

Entre os efeitos mais visíveis estão o desinvestimento em políticas públicas que haviam avançado nas décadas anteriores. A reforma antimanicomial, por exemplo, foi adotada como política estatal na Argentina em 1991, no Brasil em 2001 e no Uruguai em 2009. Após 2008, ocorreu um processo gradual de retirada de recursos, comprometendo a manutenção dessas conquistas.

Retrocesso nos direitos humanos no Brasil sob Bolsonaro

Em 2023, a Anistia Internacional Brasil listou 32 violações de direitos humanos atribuídas ao governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje preso. O relatório aponta retrocessos em saúde, educação, meio ambiente e proteção de grupos vulneráveis.

32 violações listadas pela Anistia

Entre os pontos destacados estão:

• Gestão da pandemia: declarações que minimizaram a covid-19, trocas sucessivas de ministros da Saúde e demora na compra de vacinas.

• Povos indígenas: omissão diante de surtos e falta de assistência.

• Educação: mudanças frequentes na pasta e ataques a programas de ensino sexual.

• Sistema prisional: escassez de testagem e tratamento na pandemia.

• Discursos de ódio: disseminação on-line de conteúdo machista, homofóbico e misógino.

• Meio ambiente: desmonte de Ibama e ICMBio.

A expectativa de revisão rápida dessas políticas, segundo analistas, não se confirmou. Em vez disso, observou-se um processo gradual de correção, alimentando percepções de complacência moral e fortalecendo tendências autoritárias.

Paradoxo dos direitos universais

A discussão sobre universalidade de direitos ganhou relevo após a Segunda Guerra, com a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. No entanto, o princípio vem sendo alvo de críticas por parte de países socialistas, teocracias islâmicas e correntes acadêmicas.

Histórico de traumas coletivos

Pensadores como Enrique Dussel e François Julien observam uma “patologia da universalização cultural”. Conflitos traumáticos, do genocídio armênio ao massacre de Ruanda, mostraram que a criação de normas globais não impede repetições de violência. A chamada “zona branca da lei”, expressão inspirada na série argentina “O Eternauta”, aponta momentos em que a legislação se torna indiferente a atos extremos.

Capitalismo chantagista e ódio ao universal: análise de retrocessos nos direitos humanos de Gaza ao Brasil - Imagem do artigo original

Imagem: uol.com.br

Dussel identifica duas políticas em tensão: a da incomensurabilidade, que vê cada sofrimento como único, e a da comunicabilidade universal, que exige negar particularidades para formar um corpo político. Quando combinadas, essas abordagens podem gerar ressentimento e abrir espaço para populismos.

Gaza como laboratório global de chantagem política

Estudiosos enxergam na Faixa de Gaza o “ponto máximo” do capitalismo chantagista. A permanência de Benjamin Netanyahu e do partido Likud no poder é atribuída à manipulação do temor real representado por Hamas, Hezbollah e Irã. Essa ameaça serve de justificativa para operações militares, ocupações e ações em territórios vizinhos.

A lógica seria semelhante a outros “laboratórios” históricos, como o extermínio na Namíbia na década de 1930, considerado ensaio para os campos nazistas, ou os “currais” no Ceará durante o governo Vargas, onde a população foi submetida a trabalho forçado sob o pretexto de combater a seca.

Nesse contexto, o “ódio ao universal” surge como reação às promessas não cumpridas de proteção igualitária. O fenômeno, segundo os analistas, alimenta a descriminalização gradual da chantagem, observada em práticas políticas que operam “dentro da lei”, mas normalizam violações.

Desafios para um novo consenso

Especialistas avaliam que superar o atual impasse requer distinguir universais formais de consensos empíricos. A proposta envolve sobrepor princípios jurídicos sólidos a barganhas circunstanciais, evitando que normas sejam usadas para legitimar desigualdades.

O debate volta-se, assim, para a capacidade de construir mecanismos que integrem vozes particulares sem sacrificar a força coercitiva das leis. Para estudiosos das transformações sociais, esse é o ponto de virada necessário para enfrentar o capitalismo chantagista e o ódio ao universal.

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