A oferta de telemedicina permanece restrita no país. Um levantamento da Frente Nacional dos Prefeitos (FNP) revela que apenas 10% das cidades brasileiras contam com consultas médicas on-line. A limitação afeta diretamente o acesso da população a especialistas e mantém a pressão sobre o Sistema Único de Saúde (SUS).
Alcance limitado da telemedicina no Brasil
Dados do levantamento
O estudo da FNP mapeou os 5.570 municípios e constatou que só cerca de 550 dispõem do serviço virtual. Assim, nove em cada dez cidades ainda dependem exclusivamente do atendimento presencial. O resultado indica que a digitalização da saúde caminha em ritmo lento quando comparada ao avanço de outras ferramentas tecnológicas no país.
Regiões mais afetadas
O cenário é mais crítico no Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Nessas áreas, a combinação de longas distâncias, menor oferta de profissionais e infraestrutura precária dificulta a adoção das plataformas. Enquanto isso, Sudeste e Sul concentram a maior parte dos municípios já conectados, reforçando disparidades regionais históricas no sistema de saúde.
Infraestrutura ainda é o principal obstáculo
A ausência de computadores adequados, redes estáveis e banda larga de qualidade foi apontada como o maior entrave pelos gestores municipais. Sem esse suporte, médicos e enfermeiros não conseguem fazer videochamadas confiáveis nem acessar prontuários eletrônicos em tempo real. O problema atinge unidades básicas de saúde que, muitas vezes, sequer possuem sinal de internet contínuo.
Impacto esperado no SUS
Especialidades com maior carência
A pesquisa destaca que oftalmologia, ortopedia, neurologia e cirurgia geral concentram a maior escassez de profissionais. Nessas áreas, a telemedicina permitiria que médicos localizados em centros de referência prestassem apoio remoto às equipes locais, evitando deslocamentos desnecessários dos pacientes e reduzindo custos operacionais.
Potencial de redução das filas
Segundo a FNP, o atendimento virtual pode desafogar até 30% da demanda presencial, liberando vagas para casos complexos. Pacientes com queixas simples seriam avaliados à distância e receberiam orientações ou encaminhamentos automáticos. Dessa forma, o tempo médio de espera diminuiria e a eficiência do SUS aumentaria sem a necessidade de ampliar fisicamente a rede.
Investimentos federais e legislação de suporte
PAC da Saúde prevê R$ 300 milhões
Para ampliar o acesso, o Ministério da Saúde incluiu a telessaúde no novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) da Saúde. O plano prevê aporte de R$ 300 milhões em equipamentos, conectividade e capacitação até 2026. A meta é modernizar as unidades básicas e integrar o atendimento virtual às rotinas assistenciais de forma permanente.
Imagem: olhardigital.com.br
Normas que regulamentam a prática
A expansão do serviço conta com respaldo jurídico. A Lei 14.510/2022 autorizou a telessaúde em todo o território nacional, enquanto a Resolução CFM 2.314/2022 definiu critérios técnicos e éticos para médicos que atuam on-line. Com a base legal consolidada, os gestores públicos precisam agora ajustar processos internos e garantir segurança de dados.
Crescimento durante a pandemia e desafios futuros
Entre 2020 e 2022, a telemedicina cresceu 372% e totalizou mais de 7,5 milhões de atendimentos, segundo a associação Saúde Digital Brasil. O aumento foi impulsionado pelas medidas de distanciamento social, que tornaram o formato remoto a única alternativa para muitos pacientes. Terminada a fase crítica, o desafio passou a ser transformar o uso emergencial em política pública estável.
Especialistas ouvidos pela FNP alertam que, sem investimento contínuo em infraestrutura e treinamento, o serviço pode retroceder. A digitalização requer redes de alta velocidade, sistemas interoperáveis e equipes familiarizadas com a tecnologia. Somente assim será possível levar a telemedicina para além dos 10% atuais e garantir que moradores de regiões distantes recebam o mesmo padrão de cuidado oferecido nos grandes centros.
Com os recursos previstos no PAC, a expectativa do governo é acelerar a implantação e reduzir o tempo de atendimento em até um terço. Se alcançada, a meta representará um avanço significativo na democratização do acesso à saúde e na otimização dos recursos do SUS.

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