Corrida pela inteligência artificial esbarra na ética no Vale do Silício
A ex-diretora de IA da Microsoft, Gabriela de Queiroz, afirma que as big techs concentram esforços em lançar produtos antes da concorrência, reduzindo espaço para discussões sobre limites éticos. O cenário descrito reflete o ambiente de “corrida do ouro” que domina a região californiana. Nesse contexto, a maioria das empresas prioriza velocidade e investimento, enquanto poucos profissionais insistem em criar salvaguardas.
Pressão por velocidade deixa regulação de lado
Segundo Queiroz, propostas de “guard rails” ou marcos regulatórios são vistas como barreiras à inovação. A executiva observa que o dinheiro e a visibilidade estão do lado de quem apresenta soluções de IA, não de quem questiona riscos sociais. Como resultado, a discussão sobre impactos negativos ainda não ganhou força suficiente para alterar estratégias corporativas.
Diversidade e inclusão sofrem retrocesso após mudança política
Queiroz vive no Vale do Silício há treze anos e percebeu mudanças a partir da eleição de Donald Trump em 2016. Projetos de diversidade e inclusão, outrora financiados por grandes empresas, perderam recursos e muitos foram encerrados. Ela relata que atitudes machistas, consideradas superadas, voltaram a ocorrer com mais frequência dentro dos escritórios.
Iniciativas fechadas e novo posicionamento das big techs
Organizações criadas para apoiar grupos minorizados deixaram de receber verbas, dificultando a entrada de profissionais de perfis diversos no setor. Embora a Microsoft tenha mantido programas internos, companhias como Google e Salesforce emitiram sinais de recuo no compromisso público com inclusão. Para Queiroz, o tema passou a ser tratado como assunto sensível ou mesmo evitado em certos fóruns.
Uso interno de IA é menor do que a publicidade sugere
A ex-executiva contesta a narrativa de que as gigantes do setor utilizam inteligência artificial em todos os processos internos. Ela afirma ter observado aplicações pontuais em produtos voltados ao mercado, mas pouca adoção em rotinas burocráticas. Na avaliação da especialista, a ênfase no discurso serve mais para posicionamento midiático do que para transformação operacional.
Marketing supera prática cotidiana
A disputa para provar quem “usa mais IA” estaria relacionada a manter presença constante nos noticiários de tecnologia. A funcionária relata que, mesmo em projetos prioritários, era comum depender de métodos tradicionais de desenvolvimento. Portanto, recomenda cautela ao interpretar anúncios de avanços que, muitas vezes, permanecem restritos a protótipos.
Demissões não tiveram relação direta com substituição por IA
Em recente onda de cortes na Microsoft, cerca de 6.000 funcionários deixaram a companhia, incluindo Queiroz. Ela afirma que as demissões atingiram equipes de áreas fundamentais, cujo trabalho não poderia ser realizado por sistemas automatizados. A especialista reconhece que a IA aumenta produtividade, mas nega ter havido troca direta de pessoas por algoritmos.

Imagem: uol.com.br
Cargos técnicos continuam sem alternativa automatizada
Funções ligadas à pesquisa básica, à infraestrutura de dados e à governança tecnológica demandam conhecimento humano específico. Mesmo com avanços em modelos generativos, esses postos ainda carecem de supervisão, validação e refinamento que máquinas não entregam. Por isso, a ex-diretora descarta a ideia de que o enxugamento de quadros serve para abrir espaço a robôs.
Agentes de IA despertam interesse, mas utilidade é restrita
Ferramentas batizadas de “agentes” tornaram-se tendência em grandes empresas e startups, porém ainda encontram aplicação limitada fora de call centers e atendimento ao cliente. Para Queiroz, muitos desses lançamentos têm como objetivo mostrar inovação a investidores e imprensa. A distinção entre automatização simples e agente cognitivo robusto nem sempre é clara para o público.
Protótipos nem sempre viram produtos
A executiva lembra que o Vale do Silício já exibiu diversas “ondas” que não se confirmaram comercialmente. Ela aponta que alguns projetos brilham em demonstrações, mas esbarram em custos, segurança e falta de dados adequados. Em consequência, parte do entusiasmo inicial diminui quando se exige escalabilidade e retorno financeiro.
Impacto sobre jovens profissionais preocupa especialistas
Apesar de manter visão otimista, Queiroz destaca riscos para recém-formados que buscam vagas em um mercado em transformação. A ampliação de ferramentas automatizadas pode reduzir posições de entrada e exigir novas competências. Para mitigar esse cenário, ela defende equipes multidisciplinares com participação de linguistas, antropólogos e sociólogos.
Retorno de perfis humanistas à tecnologia
A ex-diretora observa sinal positivo no interesse crescente de profissionais de diferentes áreas pelo desenvolvimento de sistemas inteligentes. Essa diversidade pode reforçar debates éticos, culturais e sociais no momento de treinar modelos e definir usos da tecnologia. A presença desses especialistas tende a equilibrar a pressa do mercado com preocupações de longo prazo.