Rastreadores em remessas de chips de IA reforçam fiscalização dos EUA
Autoridades dos Estados Unidos passaram a inserir dispositivos de localização em remessas específicas de chips de inteligência artificial considerados de alto risco de desvio para a China, segundo duas pessoas com conhecimento direto da operação.
Os rastreadores são direcionados a lotes sob investigação e fazem parte dos esforços para aplicar as restrições de exportação impostas a semicondutores avançados desde 2022.
Objetivo: detectar desvios para destinos sob sanções
A iniciativa busca identificar rotas clandestinas que contornem os controles de exportação norte-americanos. Quando os sensores indicam a chegada dos produtos a locais proibidos, os dados podem embasar ações criminais contra indivíduos ou empresas que lucram com o comércio ilegal.
Fontes ligadas à aplicação da lei afirmam que os dispositivos já ajudaram em casos envolvendo outros itens sujeitos a controle dos EUA, como peças de aeronaves, e agora ganham destaque no setor de semicondutores.
Como os rastreadores são instalados nas cargas
Cinco profissionais que atuam na cadeia de suprimentos de servidores para IA disseram ter visto ou tomado conhecimento dos rastreadores em equipamentos de fabricantes como Dell e Super Micro, que incorporam chips da Nvidia e da AMD.
De acordo com esses relatos, os dispositivos podem ficar escondidos na embalagem externa, dentro da proteção interna ou até mesmo dentro do próprio servidor. Em um envio de 2024, servidores Dell que continham chips Nvidia apresentavam rastreadores visíveis nas caixas e aparelhos menores no interior dos componentes.
Outro participante da cadeia de revenda relatou ter visto fotos e vídeos de parceiros removendo rastreadores de servidores Dell e Super Micro. Alguns sensores teriam tamanho semelhante ao de um smartphone.
Órgãos dos EUA envolvidos na operação
O Bureau of Industry and Security (BIS), ligado ao Departamento de Comércio, costuma coordenar as investigações, mas equipes do Homeland Security Investigations (HSI) e do FBI também podem participar, conforme as fontes.
Questionados pela Reuters, HSI e FBI não comentaram. O Departamento de Comércio também não respondeu. O Ministério das Relações Exteriores da China disse não ter conhecimento do assunto.
Empresas reagem às informações sobre rastreamento
A Super Micro declarou que não divulga políticas internas de segurança e evitou comentar a presença de dispositivos instalados por autoridades. A Dell afirmou não ter conhecimento de qualquer iniciativa do governo dos EUA para inserir rastreadores em seus produtos.
A Nvidia negou a instalação de aparelhos secretos em seus chips. A AMD não se posicionou até o momento da apuração.
Imagem: uol.com.br
Contexto: restrições dos EUA a semicondutores avançados
Desde 2022, Washington limita a venda de processadores de alto desempenho para a China, alegando preocupações de segurança nacional. As regras atingem, sobretudo, chips utilizados em computação de ponta e aplicações de IA.
Embora o governo do então presidente Donald Trump tenha sinalizado a intenção de flexibilizar parte das medidas, autoridades de controle de exportação mantêm esforços para impedir que tecnologia sensível chegue a destinos sujeitos a sanções.
Não há informações sobre a frequência de uso dos rastreadores nem sobre a data exata em que passaram a ser aplicados em remessas de chips. Fontes da indústria destacam, contudo, que a prática de monitorar produtos com sensores existe há décadas e foi adaptada para o setor de semicondutores conforme os controles se intensificaram.
Investigação depende de remessas selecionadas
Os rastreadores não são colocados em todos os lotes. Eles aparecem apenas em cargas que despertam suspeita, segundo as fontes envolvidas. Em geral, a identificação de risco considera o histórico do comprador, o destino declarado e sinais de triangulação por intermediários.
Quando ativado, o dispositivo envia dados de localização que permitem acompanhar o trajeto em tempo real ou analisar o percurso depois da entrega. Caso o chip chegue a um endereço sob embargo, os investigadores podem reunir evidências para responsabilizar os envolvidos.
Próximos passos da fiscalização
Especialistas da cadeia de fornecimento avaliam que o monitoramento deve se expandir enquanto persistirem as restrições de exportação. Para fornecedores, a possibilidade de ter a carga rastreada aumenta a pressão por auditorias internas e controles de rota.
Por outro lado, revendedores na Ásia relatam que alguns clientes já procuram métodos para identificar e remover sensores, o que pode levar as autoridades a adotar dispositivos menores ou técnicas de ocultação mais avançadas.
Até o momento, não há confirmação pública de apreensões ou processos que tenham usado dados gerados pelos rastreadores de chips de IA, mas pessoas próximas às investigações sinalizam que informações coletadas em 2023 e 2024 poderão embasar acusações futuras.
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